terça-feira, 24 de novembro de 2009

Afago da brisa de verão

Naquele verão algo mudou. Em meio há um mundo de fantasias, encontrou uma realidade, que tentava evitar a anos. Antes se escondia em cascas e friezas. E agora sem proteção sentia-se finalmente segura. No alto do arranha-céu, por mais frio que o vento soprasse, ela era tomada por uma intensa e constante brisa de calor. Enquanto dormia, observada por olhos zelosos, sonetos eram escritos. E todas as noites lhe criavam um sonho. Palavras passaram a tocar sua pele como nunca antes haviam feito. Conhecera um sentimento que não parecia passar. Finalmente entendera o seu sentido. Não tinha mais medo do que antes lhe era mistério e assombro. Estava plenamente feliz. No outono tudo passara a ser uma lembrança, pois era isto tudo o que poderia ser naquele momento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Constante Mudança

Uma constante em sua vida era a inconstância. Sempre gostou de mudanças. Nunca se acostumou com o acostumar-se. Achava sem graça. Afinal que animação teria caso ficasse sempre no mesmo lugar? Talvez por viver tudo tão intensamente, esgotavam-se as possibilidades e precisava mudar. Era o seu rito de passagem. Trocava a cor e o comprimento dos cabelos, os lugares aonde ia e para combinar com seu novo eu, trocava os eus a sua volta. Ganhava outra vida, se tornava outro alguém. Tudo ficava interessante e novo de novo. Não se sentia real quando não mudava. Precisava disso para que seu existir fizesse mero sentido. Possuía uma bela e extensa coleção de máscaras. O seu verdadeiro rosto ainda permanece um mistério, apesar de que se olharem bem de perto é possível enxergar seus olhos. Mas são poucos que se atrevem. Era tão mutante que não conseguia descrever-se na primeira pessoa. A terceira é mais distante e causa menos identificação. E essa sim se parece com ela. Na ausência da primeira, define-se em terceira. Um dia vai se cansar da constante mudança, e aí se tornará a primeira pessoa estática. E de alguma forma isso também será uma mudança.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Adversidades Contraditórias

Naquela manhã, acordou com os olhos inchados. O quarto repleto de adversidades parecia aumentar o vazio que sentia dentro de si. Estava cansada das coisas que havia visto no mundo. Não se chocava e nem se surpreendia mais. Já entendera que não existem bem ou mal absolutos, e que em situações adversas alguma das partes se revelaria mais forte. As pessoas eram contraditórias. Apesar de entender, não aceitava. Estava determinada, iria se retirar. Abandonaria o que chamava de vida por tempo indeterminado.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A realidade dos sonhos

Ela gostava de sonhar. No sentido literal, aquele onde você dorme, dorme pesado, sonha e acorda. A realidade sempre lhe parecia mais brutal e cruelmente sem graça. Durante o dia acumulava material para os sonhos. Via, ouvia e sentia tudo que pudesse absorver. Vivia cercada por pessoas, dos mais variados estilos, mas acabava sempre por preferir sua própria companhia. Quando ficava sozinha parecia que as vozes do mundo se calavam e só as devidas importâncias ficavam evidentes. Assim seguia se enchendo do que realmente preenche. Na hora de dormir vinha o problema. Estava tão cansada de tudo que tinha sentido que seus músculos, com tamanha fadiga, não conseguiam se livrar dos nós obtidos. Quanto mais insônia, mais sensações acumulava. Os músculos gritavam por ação e a alma suplicava por qualquer coisa, menos o vazio. E seguia criando. Até que certo dia, sem nenhum alarde, o sono veio. Ela dormiu. E como dormiu! Apreciou seus olhos cerrarem lentamente, o corpo se largando e a alma esvaecendo. Agora sim. Estava em casa. Todas as vezes em que conseguia a incrível façanha de dormir, sonhava. Ah, e que prazer! De tudo que havia absorvido, escolhia só o que lhe cabia. Mas nada irreal isso jamais. Recriava ambientes conhecidos com pessoas reais, porém em situações que (ainda) não haviam ocorrido. Recebia ligações de quem esperava, beijos de quem secretamente desejava, afagos daquele distante e promessas que jamais eram quebradas. Conseguia tudo que almejava, enfim tudo que sempre sonhou era real. Em sonho. Mas a manhã sempre chegava e a surrupiava do seu mundo real, constantemente mais interessante que a realidade real. Vivia assim, esperando por, quem sabe, um dia dormir e jamais acordar.

Escolha

Gosto mais das entrelinhas do que dos versos soletrados. Prefiro o silêncio que diz à palavra vazia. O sentimento à demonstrações supérfluas. Prefiro o viver ao existir.