terça-feira, 3 de novembro de 2009
A realidade dos sonhos
Ela gostava de sonhar. No sentido literal, aquele onde você dorme, dorme pesado, sonha e acorda. A realidade sempre lhe parecia mais brutal e cruelmente sem graça. Durante o dia acumulava material para os sonhos. Via, ouvia e sentia tudo que pudesse absorver. Vivia cercada por pessoas, dos mais variados estilos, mas acabava sempre por preferir sua própria companhia. Quando ficava sozinha parecia que as vozes do mundo se calavam e só as devidas importâncias ficavam evidentes. Assim seguia se enchendo do que realmente preenche. Na hora de dormir vinha o problema. Estava tão cansada de tudo que tinha sentido que seus músculos, com tamanha fadiga, não conseguiam se livrar dos nós obtidos. Quanto mais insônia, mais sensações acumulava. Os músculos gritavam por ação e a alma suplicava por qualquer coisa, menos o vazio. E seguia criando. Até que certo dia, sem nenhum alarde, o sono veio. Ela dormiu. E como dormiu! Apreciou seus olhos cerrarem lentamente, o corpo se largando e a alma esvaecendo. Agora sim. Estava em casa. Todas as vezes em que conseguia a incrível façanha de dormir, sonhava. Ah, e que prazer! De tudo que havia absorvido, escolhia só o que lhe cabia. Mas nada irreal isso jamais. Recriava ambientes conhecidos com pessoas reais, porém em situações que (ainda) não haviam ocorrido. Recebia ligações de quem esperava, beijos de quem secretamente desejava, afagos daquele distante e promessas que jamais eram quebradas. Conseguia tudo que almejava, enfim tudo que sempre sonhou era real. Em sonho. Mas a manhã sempre chegava e a surrupiava do seu mundo real, constantemente mais interessante que a realidade real. Vivia assim, esperando por, quem sabe, um dia dormir e jamais acordar.
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